quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Pelo menos faça a sua parte!


Quem determina o destino? Talvez esta seja a mais antiga indagação de todo ser humano!

Muitas pessoas acreditam que o destino é imutável porque é controlado por uma força maior. Uns chamam esta força de Energia, alguns chamam de Natureza, e outros avocam Deus. “Ele é um predestinado!”, “Ninguém morre antes da hora!” e “Morreu porque sua hora chegou!” são expressões que exemplificam esta crença.

Outros indivíduos creem que o homem vive como pode até que seu destino se mostre e o guie nos momentos decisivos da sua existência. E eles dizem: “Meu anjo da guarda é forte!”

E alguns ainda entendem que o destino nada mais é do que o resultado das escolhas e do comportamento de cada pessoa, não obstante a presença divina. Estes afirmam: “Ele fez por merecer o melhor!” e “Morreu porque quis!”

Apesar da diversidade de crenças e das frases feitas, só uma coisa é realmente certa: ninguém conhece verdadeiramente o próprio destino; ninguém sabe previamente o resultado final de uma escolha, seja ela boa ou ruim.

Mas imagine que todas as vítimas do crime e da violência pudessem, horas antes de serem atacadas, visualizar o futuro por um breve momento. Quantas pessoas se salvariam? Agora pense quantos policiais seriam salvos se eles pudessem conhecer o futuro. Se isto fosse possível, com certeza cada um de nós teria um, dois ou, quem sabe, dez amigos policiais ao nosso lado novamente.

Assim, o detetive da Polícia Civil de Minas Gerais A.B.A.S (32 anos) não perseguiria o suspeito que o emboscaria numa rua escura e o mataria com um tiro na cabeça em 23 de janeiro de 2003 na cidade de Belo Horizonte/MG.

Se soubessem que um dos presos, levado para a 25ª DP do Engenho Novo, conseguiria se livrar da algema descartável, desarmar, atirar e matar um dos colegas, os policiais do 3º BPMRJ teriam contido o criminoso com uma algema convencional e mantido a segurança do armamento durante todo o tempo em que preenchessem o boletim de ocorrência em 07 de agosto de 2008.

Em 28 de maio de 2008, o policial civil do Estado de São Paulo C.P.S. (57 anos) não teria ido sozinho ao Morro do Kibom para entregar uma intimação se soubesse que a pessoa que assinaria o documento aguardaria que ele virasse de costas para esfaqueá-lo, tomar-lhe a arma, abrir fogo, e depois arrastar seu corpo por cerca de 100 metros até a viatura na tentativa de incendiá-la junto com seus restos mortais.

Os instrutores da Academia de Polícia do Barro Branco não realizariam a instrução de tiro do dia 20 de janeiro de 2004 se soubessem que um disparo acidental ceifaria a vida do soldado PMSP 2ª classe F.G. (23 anos).

Os policiais federais F.L.F (42 anos) e J.G.R não permaneceriam horas à fio dentro de uma viatura descaracteriza durante uma campana se soubessem que quatro criminosos armariam uma emboscada que mataria F.L.F com um tiro no tórax, em 13 de dezembro de 1989, na cidade de Campo Grande/MS.

E com certeza, na manhã do dia 17 de janeiro de 2010, o soldado D.A.W. e o 3º sargento W.A.C. (41 anos), ambos da Polícia Militar do Rio de Janeiro, não estacionariam a viatura na região central da cidade e ficariam dentro dela se tivessem a convicção de que em 30 minutos, três ou quatro criminosos se aproximariam num carro preto, sairiam do veículo e disparariam ininterruptamente contra os dois, provocando ferimentos no primeiro e a morte imediata do segundo.

Não há dúvida de que o treinamento e o trabalho policial seriam mais fáceis e seguros se existisse esta tal vidência. Afinal, bastaria treinar continuamente e à exaustão cada aluno predestinado ao confronto com criminosos ou alocar estes policiais em outras atividades. Mas isso é pura ficção, e a realidade é tão dura quanto o chão no qual tombaram estes heróis.

Por isso, você precisa considerar sua crença, seja ela qual for, e se perguntar se ela encoraja ou não sua capacidade para se defender; se ela impõe a aceitação incondicional de que tudo na vida é obra de um destino inflexível ou se o estimula a aceitar total responsabilidade por sua segurança pessoal.

Por que isto é importante? Porque alguém que acredita que seu destino é controlado por uma força externa tende a relaxar e não ser bem sucedido em uma situação de sobrevivência se comparado a um indivíduo inclinado a confiar em sua própria capacidade para decidir e tomar uma atitude. Aquele que se considera no controle das coisas boas e ruins que experimenta tem mais chance de superar situações difíceis do que aquele que acredita que as coisas ocorrem por acaso. Este último se entrega facilmente às adversidades, pois seu destino não lhe pertence, não importando o que ele faça para estar a salvo.

Logo, cada policial deve assumir total responsabilidade por sua própria segurança fazendo aquilo que lhe cabe. Ou seja, pelo menos não cometendo os mesmos erros que têm levado as vidas de milhares de policiais em todo o mundo.

No centro deste tema estão o estado de alerta e o comportamento preventivo. O comportamento preventivo começa quando você simplesmente acredita que pode ser o alvo algum dia. O estado de alerta ocorre quando você presta atenção nas pessoas e nos acontecimentos à sua volta.

Mas sabendo que não é possível permanecer 100% alerta 100% do tempo, você pode avaliar quais os momentos da sua vida requerem um nível maior de atenção. Sem dúvida, estar dentro de uma viatura num local perigoso exige um nível de alerta maior do que se você estivesse num supermercado. Ficar na viatura é confortável, mas perigoso. Fora dela é ruim, porém mais seguro. Fora da viatura, você vê o que ocorre na redondeza e pode reagir mais rápido do que se estivesse confinado dentro do veículo.

Com isto em mente, pode-se dizer que a morte não tem hora ou data marcada, a menos que você vacile e faça seu próprio agendamento. Deus deseja o seu bem, contudo certas tarefas são da sua responsabilidade. E ficar vivo é uma delas!

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e professor de armamento e tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal de Uberlândia/MG.
E-mail:
humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com