sexta-feira, 7 de setembro de 2012

O seguro morreu de velho!

Se você pressionar o gatilho de uma arma de fogo, ela fará exatamente aquilo para o qual foi projetada. Ou seja, sua pistola lançará um projétil até o alvo, que pode ser o agressor, o chão, o assoalho da viatura, a parede da sua casa, você ou uma pessoa inocente.

Normalmente, quando se aprende a atirar, duas regras básicas de segurança são mencionadas: manter o dedo fora do gatilho até estar pronto para atirar e nunca apontar a arma para si mesmo ou alguém em quem não deseja atirar. Depois disso, o próximo comando é: “Atenção, fogo!” Na verdade, pouca ênfase se dá as regras de segurança após elas serem relembradas.

Se você tem uma arma de fogo, certamente a manuseia com mais frequência do que atira com ela. Significa que você tira e insere a arma no coldre; retira o carregador; descarrega e carrega a arma; faz a limpeza; pressiona o gatilho; desmonta e monta a arma, etc. E isso é parte da rotina se você possui ou porta uma arma.

Desse modo, uma das coisas mais perigosas que pode acontecer quando alguém maneja uma arma é um disparo acidental. Essa ocorrência pode ser devida a uma falha humana ou do armamento. Um disparo acidental, portanto, é um episódio que compreende o disparo duma arma de fogo num instante não desejado pelo atirador. Tal ocorrência pode ser provocada pela falta de responsabilidade do usuário ou pela instrução inadequada sobre as regras de segurança. Exemplos disso são as tragédias envolvendo crianças que pegam armas deixadas em casa e as disparam acidentalmente contra amigos ou familiares. Brincadeiras com armas de fogo são demonstrações óbvias de falta de maturidade para lidar com tais instrumentos. É certo que nesse tipo de disparo acidental todas as regras de segurança foram desobedecidas simultaneamente, resultando em grande número de ferimentos graves ou mortes. A falta de conhecimento também não é desculpa para um disparo acidental.

Talvez o mais comum nesse tipo de incidente seja o gatilho ser pressionado sem o propósito de se atirar efetivamente (como nos treinos em seco, demonstrações, testes de funcionamento), mas a munição ainda está, inadvertidamente, presente na arma.

Uma segunda causa comum de disparos acidentais é quando o usuário insere o dedo no gatilho antes de ter decidido atirar. Com o dedo posicionado desta forma, muitas coisas podem provocar a pressão inadvertida do gatilho. Por exemplo, se você tenta coldrear a arma com o dedo no gatilho, o coldre irá conduzir o dedo ao longo do gatilho, e um disparo é provável. Se o você cai, leva um susto ou se atraca (com o adversário) com o dedo no gatilho da arma, outro disparo acidental pode ocorrer.

Isso não deve ser confundido com os casos em que o usuário dispara de propósito contra alguém e acerta outra pessoa. Pressionar o gatilho intencionalmente e acertar uma pessoa não pretendida é uma questão de falha na identificação do alvo durante situações estressantes. E isso é o resultado da falta de treinamento de tiro para situações de autodefesa, quando é preciso rapidamente identificar a ameaça (o alvo correto) e realizar os disparos.

Agora a diferença entre o disparo acidental (produzido pela falta de responsabilidade, instrução inapropriada e incapacidade de identificar o alvo correto) e um disparo não intencional é que neste último caso o usuário possui conhecimento sobre as regras de segurança e manuseia a arma com respeito e da forma adequada. 

Apesar disso, o que se considera num disparo não intencional é a incapacidade do ser humano agir sempre com perfeição. Quer dizer, é a possibilidade de falha humana. Mesmo que você faça tudo certo, não há como evitar um erro de vez em quando, como por exemplo, não retirar o carregador da pistola antes de abrir o ferrolho; utilizar um coldre de couro com uma deformação próxima ao gatilho (como a imagem que ilustra este artigo); esquecer um cartucho na câmara e pressionar o gatilho de uma pistola Glock para iniciar sua desmontagem.

Já os disparos por falha mecânica são incomuns atualmente, e neste caso, não há qualquer falha humana ou irresponsabilidade do usuário. Com as tecnologias das armas modernas, o evento de falha mecânica é raro, mas pode acontecer. Um exemplo disso pode ser visto no vídeo postado no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=K5F_rGLMfUQ).

Qualquer pessoa que maneje uma arma de fogo tem a chance de produzir um disparo acidental cedo ou tarde. Se isso não aconteceu ainda, basta esperar um pouco, pois quem possui uma arma vai baixar a guarda em algum momento. Então, o que se pode fazer? Respeitar as regras de segurança e criar uma rotina para reduzir as chances de um disparo acidental.

Então, a primeira regra de segurança normalmente determina que você sempre mantenha a arma apontada para uma direção segura. O cumprimento desta regra assegura que, se um disparo acidental ocorrer, nenhum dano será produzido, em tese. A segunda regra informa que seus dedos devem permanecer fora do gatilho até que a decisão em atirar tenha sido tomada; mesmo que você esteja prestes a encarar um adversário e queira estar preparado para atirar no momento certo, manter o dedo fora do gatilho até a decisão final previne um disparo acidental.

Já o Coronel dos Fuzileiros Navais Americanos John Dean Cooper ampliou as regras básicas de segurança com armas de fogo. São elas: toda arma está sempre carregada; nunca permita que a arma seja apontada para algo que você não está preparado para destruir; nunca deixe o dedo tocar o gatilho até que você esteja pronto para atirar e sempre esteja certo sobre o seu alvo e o que está além dele.

O Serviço de Armamento e Tiro da PF (SAT/ANP), com propriedade, desenvolveu uma rotina de verificação de armas que pode ser utilizada sempre que você pegar uma arma por qualquer razão. O procedimento consiste em três fases, denominadas inspeção visual, inspeção tátil e inspeção material, e é executada da seguinte maneira:
1. Considerando a arma pronta para o uso, com o dedo fora do gatilho, pressione o retém do carregador;
2. Retire o carregador da arma;
3. Abra o ferrolho e trave-o usando o retém do ferrolho. Neste instante, um cartucho será ejetado da arma. Recolha-o ao final de todo o procedimento;
4. Passe a mão de apoio por baixo da coronha (alojamento do carregador) e confira se você é capaz de enxergar essa mão através da janela de ejeção. Isso garante que o carregador foi realmente retirado, num processo de segurança redundante;
5. Insira o dedo indicador da mão de apoio na câmara da arma para verificar se o cartucho foi realmente ejetado e a arma está, de fato, vazia. Não basta olhar para a câmara, pois isso não garante o processo caso você tenha que realizar a inspeção durante a noite ou em um ambiente mal iluminado;
6. Feche a arma e pressione o gatilho sempre numa direção segura.

Finalmente, se você retirar sua arma do cinto, sempre a mantenha no coldre. Na pistola Glock o coldre é parte integrante do sistema de segurança, uma espécie de medida adicional de segurança, já que a arma não irá disparar se estiver num coldre adequado. Então, prefira coldres em polímero. Coldres de couro são bons, mas podem deformar e criar vincos capazes de pressionar o gatilho na hora de coldrear a pistola. Por isso, verifique seu coldre de couro e nunca tenha pressa para coldrear sua arma (sempre faça isso devagar). E nunca confie na sua memória, confie nas inspeções de segurança.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin

quinta-feira, 12 de julho de 2012

É possível atirar só para ferir?

O policial realmente precisa reagir contra um ataque criminoso? Ele precisa disparar sua arma contra o delinquente que tenta matá-lo? O policial tem mesmo que matar essa pessoa quando atira nela? Ele não pode ser civilizado, e somente verbalizar com o bandido? Ele não pode apenas mirar nos braços ou nas pernas? A vida do criminoso não seria poupada, se o policial treinasse para atirar em áreas menos letais?

Algumas pessoas imaginam que o policial pode atirar no criminoso “só um pouquinho”. Mas "só um pouquinho" não existe em termos de força letal. Toda vez que alguém pressiona o gatilho, existe uma boa chance de ocorrer um sério ferimento ou a morte. A lei sequer sugere que a legítima defesa (com emprego da força letal) deva ser empregada apenas para ferir e sem qualquer chance de morte.

Entretanto, uma publicação jornalística informou que a polícia do Estado do Rio de Janeiro matou 327%* mais pessoas que a polícia de São Paulo, que tinha o dobro do efetivo. Para um leigo esse tipo de informação sugere a existência de centenas ou milhares de mortes desnecessárias causadas por policiais psicopatas. Por outro lado, mensagens assim criam a ideia de que TODOS os policiais em TODAS as ocasiões não necessitariam atirar; ou então devessem atirar nos braços e pernas dos agressores durante a aplicação da força letal.

Infelizmente, quando o policial atira contra o bandido, sempre há espaço para se acreditar que ele empregou mais força que o necessário para controlar o agressor que ameaçava sua vida. Então, o policial e até o cidadão em sua legítima defesa devem enfrentar as acusações pela intenção de matar, em razão do suposto excesso no emprego da força, muitas vezes avaliada em relação à quantidade de disparos, de perfurações ou pelo ponto de impacto na “vítima” (cabeça e costas, por exemplo). Obviamente, não se pode esperar total imunidade para aquele que empregou uma arma de fogo para se salvar. Contudo, o mínimo que se deve ter são pessoas altamente capacitadas para uma avaliação técnica da ocorrência, sob o ponto de vista das dinâmicas dos confrontos armados.

O trabalho policial é controlado no mundo inteiro pelos bons policiais (que ficam afastados daqueles maculados), pelas corregedorias e ouvidorias, pelo Ministério Público, por outros órgãos do Estado e pela imprensa. Mas no Brasil parece haver uma aversão ao universo policial, talvez pela avaliação não especializada de dados “estatísticos” que não alcançam o terror dos conflitos mortais enfrentados pela polícia. Artigos como “A tropa está fora de controle?”; “Em 11 anos, Rio registra 10 mil mortos em confrontos”; “Polícia mata uma pessoa no Brasil a cada cinco horas”; “Policiais militares matam 56,5% mais no Estado de SP”; “Polícias brasileiras usam diariamente munição proibida em guerras”; “Rio de Janeiro: uma polícia que morre muito e mata mais” e “Máquina mortífera” são exemplos de conceitos que sugerem uma polícia assassina e incompetente.

Ao assistir cenas de tiroteios na televisão, você já deve ter ouvido comentários como: “Deviam atirar para assustar!”, “É só atirar na perna!”, “A polícia exagerou!”, “Não precisa mais que dois tiros para resolver o problema!”. Quando civis avaliam, num almoço em família, numa entrevista no telejornal ou num tribunal, as mortes decorrentes de confrontos armados com policiais, essas ideias sem base técnica sempre surgem. A questão primordial é julgar a reação de um homem tendo como referência conceitos pré-concebidos, preconceituosos, amadores e sem base científica. É o piloto do jogo de computador Flight Simulator julgando as ações de um piloto de caça da Força Aérea! Desse modo, atirar para ferir é ingenuamente considerado um meio razoável ou ideal para interromper um comportamento perigoso que ameaça a vida do policial e do cidadão inocente.

Mas a verdade é que esse tipo de pensamento é resultado do TREINAMENTO DA TV, cujos filmes, seriados e novelas mostram atores encarnando policiais capazes de fazer todo tipo de peripécia para dominar centenas de bandidos. Nos filmes, o policial consegue contar os disparos; acertar a perna ou o braço do bandido sem atingir um osso ou um vaso sanguíneo importante; conversar com o parceiro no meio do tiroteio. O mocinho é sempre atingido de raspão e no final tudo termina numa bela briga. A questão é que isso reflete a incompreensão sobre a verdadeira face dos tiroteios e gera expectativas fora do comum em relação às habilidades reais de um policial.

Então, por que atirar para ferir não é possível nem desejável no desempenho policial padrão? Acredita-se que atirar na perna ou no braço de um criminoso tende a interromper a agressão, evitando a necessidade de se atirar na cabeça ou no peito, locais onde o resultado morte é mais provável. Ao se exigir apenas a aplicação do menor nível de força necessária para controlar um criminoso, espera-se aparentemente reduzir a probabilidade de disparos considerados excessivos ou intencionalmente mortais.

Contudo, estudos conduzidos pela Universidade Estadual de Minnesota, nos Estados Unidos, revelam alguns problemas práticos dessa ideia. Eles explicam algumas das características básicas do movimento corporal em relação ao tempo de reação e aos riscos de acertos e erros durante tiroteios reais.

A análise dos componentes humanos no tempo de reação demonstra que um número de princípios está em operação em todos os tiroteios envolvendo policiais. Estes princípios estão ligados à percepção (ato de ver e entender uma situação), ao processamento (ato de dar sentido àquilo que é visto e tomar decisões com base neste sentido) e à reação (ato de responder ao que é percebido e processado).

Assim, tais estudos indicam que as mãos e braços podem ser as partes móveis mais rápidas e ágeis do corpo humano. Por exemplo, um criminoso pode mover a mão e o antebraço através do corpo num ângulo de 90º em 12/100 de segundo (dobrar o braço para apontar uma arma na linha da cintura, por exemplo). Ele ainda pode mover a mão a partir da coxa até a altura do ombro em 18/100 de segundo (levantar o braço para apontar uma arma na linha do ombro). Entretanto, um policial comum com uma pistola Glock, pressionando o gatilho o mais rápido que pode, gasta 31/100 de segundo para disparar um tiro depois de ter percebido uma ameaça. Destes 31/100, 25/100 de segundo são utilizados para perceber a ameaça, processar a informação e enviar um estímulo para o dedo pressionar o gatilho; os outros 6/100 de segundo são gastos para a ação mecânica de pressionar o gatilho.

Portanto, não há como o policial reagir, enquadrar o alvo, atirar e acertar de modo confiável o braço ou a mão do criminoso que empunha uma arma no tempo disponível e antes que ele mesmo receba o primeiro tiro.

Mesmo que o suspeito mantenha o braço que empunha a arma parado por meio segundo ou mais, um disparo preciso é improvável, pois nestes conflitos raramente os envolvidos estão imóveis.

O braço se move mais lentamente que o antebraço e a mão. Mas ao atirar no braço, existe uma grande chance do policial acertar a artéria braquial ou o centro de massa do suspeito, áreas com alta probabilidade de causar uma fatalidade.

As pernas inicialmente tendem a se mover mais lentamente que os braços. Contudo, as regiões abaixo do tronco até os joelhos são altamente vascularizadas. Caso o policial acerte um grande vaso sanguíneo da perna, o criminoso pode sangrar e morrer em poucos segundos. Então, atirar para ferir pode causar um resultado pior do que o esperado.

Mesmo se o policial acertar a perna de modo não fatal, isso ainda deixa as mãos do bandido livres para atirar, pois sua habilidade para ameaçar a vida do policial não foi definitivamente interrompida. Então, como surgem essas ideias de atirar para ferir? A resposta: treinamento da TV.

E se o policial tentar acertar o braço ou a perna do suspeito, porém errar e atingir o tórax? Como a sua verdadeira intenção será julgada? Quem, gozando plenamente de suas faculdades mentais, se tornará um policial num país onde atirar para ferir é o procedimento padrão? Essas ideias possuem um bonito apelo humanitário, mas além do treinamento da TV, não resistem quando confrontadas com a realidade.

E a realidade de uma formação policial moderna ensina que a força letal deve ser utilizada com a intenção de interromper, o mais rápido possível, a agressão do suspeito. Querendo ou não, isso ocorre de modo mais confiável se o funcionamento do sistema nervoso central for interrompido (cabeça e medula espinhal) ou se ocorrer intensa hemorragia (coração, órgãos altamente vascularizados, vasos sanguíneos importantes, grande quantidade de perfurações no corpo). Alguns estudiosos também incluem a destruição da estrutura óssea que dá sustentação ao corpo como outra forma de se incapacitar imediatamente um criminoso violento. Por essas razões, atirar no centro de massa do agressor é considerado o modo mais efetivo para cessar um ataque porque o tórax concentra áreas vitais com os maiores vasos sanguíneos do corpo. E se a consequência de uma falha é a morte, o policial precisa garantir a maior chance de sucesso possível.

A ideia de atirar em áreas pequenas do corpo que se movem rápido, com a intenção de ferir ao invés de cessar imediatamente a agressão criminosa, sugere algumas considerações táticas:

1) O instinto de sobrevivência do policial pode exerce uma forte influência sobre a escolha de uma parte do alvo em particular. Quer dizer, é improvável, ou até mesmo impossível, que o policial sob FORTE ESTRESSE consiga CONSCIENTEMENTE pensar, mirar e atirar nos braços ou pernas do agressor. Além disso, se a vida do policial está sob violenta ameaça, sua primeira preocupação óbvia é com a própria existência, e não com a preservação da vida do criminoso. Se um bandido aponta uma arma para ele, a última coisa que o policial vai pensar é “Ah! Agora eu vou atirar bem na perna dele!” Desse modo, atirar no centro de massa é um padrão psicológico;
2) Mesmo quando policiais muito bem treinados tentam acertar o centro de massa, muitas vezes eles erram. Portanto, atingir com precisão um braço ou uma perna de um criminoso em movimento é praticamente impossível. Criar a expectativa de um padrão de desempenho impraticável é ridículo, ainda mais considerando a deficiência do Estado em promover treinamentos regulares para maioria dos policiais. No final das contas, um tiro que erra o alvo ainda pode ferir ou matar um cidadão inocente;
3) Atirar para ferir indica o uso incorreto do equipamento da polícia. Opções menos letais devem ser aplicadas somente com as ferramentas desenvolvidas com esse propósito. Se um policial deliberadamente usa um instrumento ou a força letal para controlar alguém que não representa uma ameaça mortal, então ele está usando a ferramenta errada para o trabalho. A história recente da PMDF mostra um sargento usando uma pistola para golpear um torcedor de futebol. A arma disparou e o torcedor morreu com um tiro na cabeça. Além disso, se um policial atirar no braço ou na perna dessa pessoa, ele pode destruir tecidos musculares, quebrar ou estilhaçar ossos ou destruir a função dos nervos, mutilando essa pessoa para sempre.

Mas como explicar os tiros que são disparados depois que o criminoso é incapacitado? O mesmo estudo da Universidade de Minnesota esclarece essa questão.

Há vinte anos, os policiais americanos eram treinados para ATIRAR e DEPOIS AVALIAR a situação (o comportamento do alvo). Eles disparavam uma ou duas vezes, então paravam para ver o efeito no delinquente. Isso exigia de 25/100 de segundo a 5/10 de segundo, tempo que o suspeito poderia utilizar para continuar atirando, se não tivesse sido incapacitado.

Agora os americanos aprendem a ATIRAR AVALIANDO o comportamento do agressor para determinar o efeito dos tiros à medida que continuam disparando, num processo contínuo. Isso permite que o policial se defenda de modo continuado. Mas, como o cérebro está tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo – atirar e avaliar – uma expressiva alteração no comportamento do criminoso deve ocorrer para que o policial possa reconhecer a mudança da situação para interromper os disparos.

Não é preciso grande esforço para reconhecer que a queda do criminoso no chão, após ser atingido, é uma mudança significativa na situação. Porém, analisando a forma como as pessoas caem, outro estudo determinou que são gastos em torno de 1,1 segundos para uma pessoa cair no chão em razão de um colapso repentino. Isso quando elas são atingidas no centro motor que produz uma imediata perda da tensão muscular. Nesse experimento, ficou demonstrado também que um policial comum consegue disparar quatro tiros em um segundo.

Portanto, enquanto o policial está observando esta mudança, ele ainda estará disparando sua arma se estiver pressionando o gatilho o mais rápido que pode na tentativa de salvar sua vida (instinto de sobrevivência). Neste caso, contando do momento em que o policial percebe a mudança da situação até o tempo em que ele é capaz de processar a informação e enviar um estímulo para cessar o disparo (25/100 de segundo), e somando o tempo necessário para INTERROMPER o ciclo de acionamentos do gatilho (calculado pelos pesquisadores em 6/10 de segundo), tem-se 85/100 de segundo, ou seja, quase um segundo. Implica dizer que dois ou três disparos adicionais ocorrerão. Então, se o policial estiver reagindo o mais rápido que puder, ele não conseguirá ser veloz o suficiente para interromper a puxada do gatilho. Se ele tivesse que fazer isso de qualquer maneira, a decisão de interromper os disparos deveria ocorrer bem antes dele perceber a mudança da situação (queda).

Logo, atirar além do momento em que o criminoso foi neutralizado não é, na maioria dos casos, um ato deliberado ou mal intencionado. É um fator involuntário das dinâmicas dos seres humanos. E dado o que a ciência informa sobre encontros armados, atirar para ferir é uma fantasia, cuja exigência poderia estabelecer um padrão de desempenho policial típico de um super-herói, para depois punir criminalmente aqueles incapazes de alcançar tal meta. Basta lembrar que mesmo computadores levam tempo para registrar um dado, processá-lo e apresentar uma resposta.

Para entender a importância deste assunto, é preciso lembrar que policiais podem ser processados por terem disparado suas armas meio segundo antes ou por terem atrasado a interrupção da puxada do gatilho em meio segundo ou, ainda, por terem agido em desacordo com aquilo que um leigo considera “apropriado”. Então, se você vai se envolver na avaliação do comportamento do policial baseado naquilo que ele fez em uma fração de segundo, é importante entender os limites da capacidade de reação do ser humano e aplicar esses limites de modo científico em se tratando de confrontos armados envolvendo policiais.

Também não há dúvida de que as pessoas que defendem o conceito de atirar para ferir compreendem muito pouco sobre as dinâmicas do corpo humano, a balística, as táticas ou os desafios que os policiais enfrentam nas ruas diariamente. Por isso, algumas instituições descobriram que esses críticos podem compreender melhor a atividade policial se forem convidados para treinamentos de tiro.

Existe outra ideia: deixar que os críticos façam a parte perigosa do trabalho policial para ver se são capazes de agir de acordo com o que pensam!

Finalmente, deve-se perguntar o seguinte: os bandidos realmente precisam reagir contra a ação legítima do Estado? Eles precisam disparar suas armas contra os policiais que apenas tentam prendê-los? Os criminosos realmente precisam matar essas pessoas quando atiram nelas? Eles não podem ser civilizados, e apenas se entregarem aos policiais? Eles não podem apenas mirar nos braços ou nas pernas dos policiais e das vítimas indefesas?

*Fonte: O Globo, com o artigo “Polícia Militar do Rio mata 327% mais que a de São Paulo, que tem o dobro do efetivo”, publicado no site da FENAPEF em 10/03/2008.

Foto: Jim Rankin - Toronto Star

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Padrão lixo

O Dicionário Eletrônico Aurélio informa que a palavra “lixo” possui os seguintes significados: tudo o que não presta, e se joga fora; entulho; sujidade; coisas inúteis, sem valor; resíduos. Mas para qualquer pessoa com experiência militar a mesma palavra incorpora um conceito que vai além disso.

No ambiente militar o jargão “padrão lixo” significa ser desmazelado. Em certos casos é quase uma marca registrada para a capacidade que algumas pessoas têm para serem desleixadas. “São sempre os mesmos!”, arrematam os militares, informando que o “padrão lixo” e seu aumentativo analítico "padrão lixão" se referem ao comportamento recorrente dos mesmos indivíduos. É... talvez você esteja rindo, mas certamente algum nome ou lembrança lhe veio à memória.

Então, é inadmissível que ainda existam comportamentos nesse “padrão”, considerando que não há um Policial Federal sequer que não tenha sido treinado da melhor maneira possível na Academia Nacional de Polícia (ANP). Também não conheço nenhum professor que tenha ensinado um aluno ou um Policial Federal a portar uma arma de fogo sem coldre ou com apenas um carregador. Ou pior, que tenha dito que não é necessário estar com a arma alimentada e pronta para o uso (carregada, para os militares). Também desconheço qualquer aula sobre a importância de se manter a arma sempre suja e sem manutenção.

Dias atrás conheci um policial que portava a arma de modo velado. Ele era destro, mas a arma estava sobre o lado esquerdo do abdômen. O curioso é que a metade esquerda da camisa estava por dentro da calça, justamente onde estava a pistola. A metade direita da camisa estava para o lado de fora da calça, onde a arma deveria estar. Ou seja, a metade esquerda seguia o traje esporte, enquanto a metade direita adotava o modo “policial à paisana”. Além disso, a pistola não estava alimentada. Diabo! Onde será que ele aprendeu isso? O que ele acha que pode fazer portando uma arma desse jeito? Será que ele imagina que vai ser abordado a 20 metros de distância? Talvez ele nem considere a possibilidade de ser vitimado por um criminoso e ter que reagir para salvar a própria vida. Seria melhor se ele devolvesse a pistola, sinceramente.

Se o policial acredita que portar uma arma de fogo é um fardo, então ele não deveria possuir uma arma em primeiro lugar. Se ele acredita que algo ruim não vai acontecer, então não será capaz de se antecipar ao perigo e se autodefender.

Em princípio, se o policial está armado é porque ele acredita no risco que corre e percebe a arma como um instrumento salvador. Então, seria razoável que ele melhorasse a conduta em relação ao porte da arma para diminuir a possibilidade de erro caso tivesse que reagir. Também seria preferível deixar a arma pronta para o uso, acondicionada num coldre de qualidade e no lado correto do corpo. Pense nisso: muitas vezes o criminoso não precisa se esforçar para ser bem sucedido, a não ser aguardar que o policial cometa um erro. Agora, imagine como seria sacar uma pistola, pressionar o gatilho e só então perceber que a arma não está em condições de ser usada porque você não a alimentou. Você tomou uma decisão, sacou a pistola e pressionou o gatilho esperando ouvir "Pow! Pow! Pow!" e acabou ouvindo "Clic!". Mas não se desanime, porque no final das contas você ainda vai ouvir "Pow! Pow! Pow!", mas vindo da arma do bandido!

Noutro caso, um colega (por quem tenho grande consideração) me pediu para limpar sua arma (a pistola institucional). Antes de entregá-la, ele realizou os procedimentos de segurança à moda antiga, ou seja, apontou a arma para uma direção segura, retirou o carregador, manobrou o ferrolho três vezes, e fez o acionamento em seco do gatilho. Contudo, a pistola tinha tanta sujeira que cheguei a pensar que o policial portava a arma dentro dum refil de aspirador de pó. Então, ficou claro que a tarefa não era uma simples limpeza de 1º escalão, mas sim uma verdadeira escavação arqueológica. Desmontei TODO o ferrolho e limpei peça por peça, remontando o conjunto logo em seguida. Na hora de desmontar TODA a armação, o primeiro pino foi retirado com facilidade, entretanto, o segundo pino sequer se moveu. Um pouco de jeito, um pouco de força, um pouco de lubrificante (faltou o WD-40), um pouco de paciência e... nada! Restou-me apenas realizar uma limpeza básica e devolver a arma ao colega informando sobre o problema e a necessidade de nova tentativa de desmontagem.

Há alguns anos, outro policial me entregou uma pistola (institucional, é claro!) ainda dentro da maleta de transporte. Retirei a arma da maleta, retirei o carregador, mas não consegui abrir o ferrolho por causa da ferrugem. Isso só ocorreu após aplicar muito desengripante. Onde essa arma estava guardada? Dentro de uma caixa d'água?! A Glock aplicou um tratamento denominado Teneferização no ferrolho e no cano das suas pistolas visando aumentar a resistência à corrosão, sendo que as superfícies dessas peças atingem um grau de dureza próximo a do diamante, conforme indica o próprio fabricante. Infelizmente, a Glock ainda não conseguiu superar a inventividade de certas pessoas.

Além da preocupação óbvia com a funcionalidade duma arma mal cuidada, é relevante imaginar como estas armas estarão daqui a alguns anos quando forem repassadas aos novos Policiais Federais. Quer dizer, o desleixo de alguns pode colocar em risco a vida da próxima geração de policiais e aumentar os gastos para a reparação ou substituição do armamento projetado para durar décadas. E esse não é apenas um problema das armas curtas, mas também das armas longas (fuzis, submetralhadoras e espingardas).

Alguém ainda pode alegar que não sabe ou não se lembra como realizar a manutenção duma pistola. Isso até poderia ser uma desculpa na década de 90, mas atualmente tal alegação não possui fundamento. Ora, Policiais Federais com 15 anos de experiência retornaram à ANP em 2007 para uma etapa do curso de aperfeiçoamento. Naquela época, o DPF já havia distribuído as pistolas Glock e submetido os policiais ao treinamento básico para manuseio e manutenção do novo armamento. Assim, o treinamento na ANP ocorreu com a Glock. Se isso não bastasse, os alunos da ANP são submetidos à prática do tiro quase diariamente e disparam cerca de 1000 tiros de pistola. Concluído o treinamento, eles tomam posse na 3ª Classe, e após três anos, esses policiais participam de um curso para promoção na carreira policial; uma das disciplinas trata da manutenção das pistolas Glock (20 h/a). Aprovados no curso, os policiais alcançam a 2ª Classe e nela permanecem por cinco anos. Novamente, o DPF patrocina outro curso para promoção policial da 2ª para a 1ª Classe, quando os policiais recebem instruções sobre a submetralhadora HK MP5 (20 h/a).

Alguém também pode afirmar que os dois cursos para promoção na carreira policial são realizados na modalidade a distância. Mas isso não tira o mérito do treinamento nem a necessidade de compromisso do aluno policial. Além disso, toda unidade do DPF possui as armas citadas que podem ser manuseadas em caso de dúvida ou necessidade de aprimoramento (considerando as questões de segurança). Quase todas as Delegacias de Polícia Federal e todas as Superintendências Regionais possuem professores de Armamento e Tiro capacitados para orientar os Policiais Federais sobre todas as armas de dotação do órgão. O SAT/ANP está ciente da demanda por professores de tiro e promove cursos de formação para dotar cada unidade policial com, pelo menos, um professor de tiro. E tenho convicção que nenhum colega com este encargo é capaz de negar qualquer auxílio aos colegas.

Também desconheço organização policial no Brasil que promova treinamentos de armamento e tiro para todo o efetivo como faz a Polícia Federal (PF). Desde 2008, a PF tem comprado munição para treino em quantidades que variam de 400 a 600 cartuchos por Policial Federal e publicado os planos de treinamento em boletins de serviço (235/2008, 176/2009, 056/2010, 023/2011 e 061/2012). Se na sua unidade não há treino, pode ser por duas razões: estrutural (falta de estande e outros equipamentos) e/ou motivacional (o problema mais grave).

Diante da falta de preocupação com a manutenção do armamento pessoal, seria razoável que as organizações policiais desenvolvessem um padrão de inspeção (no mínimo semestral) de todas as armas acauteladas, para identificar aquelas bem mantidas e as mal cuidadas. Reprovado na inspeção, o policial teria alguns dias para apresentar novamente a arma em condição salubre. Por que “reprovado” o policial, e não “reprovada” a arma? Porque a arma é um objeto inanimado, e se ela está mal cuidada, a culpa é do policial. Portanto, reprovado é o comportamento dele.

Obs.: o título do artigo não tem a intenção de menosprezar ou ofender qualquer policial sob qualquer circunstância, mas tão somente demonstrar a preocupação com as condições do armamento acautelado e chamar a atenção para o perigo de certos comportamentos relacionados ao porte e manutenção da arma para o próprio policial e para os que virão a seguir.

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@gmail.com
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Troca-se distintivo policial por bola de cristal.

Talvez a ideia de se trocar o distintivo policial por uma bola de cristal já explique o teor deste artigo. Mesmo assim, é razoável transcrever a notícia que deu origem ao texto.
"Conduta policial ilegal justifica recusa a revista

Se, a princípio, a conduta do policial for ilegal, a pessoa tem o direito de não se submeter à revista. Devido a esse entendimento, o advogado                   , que atua no município de Cáceres (234 km de Cuiabá), teve o boletim de ocorrência suspenso pelo juiz de Direito em substituição legal                    , que reconheceu ter sido o profissional vítima de abuso de autoridade. 
                   foi preso, segundo a delegada da cidade,                   , pelo crime de desobediência e desacato à autoridade. E a liberação do advogado se deu graças à atuação do Tribunal de Defesa das Prerrogativas dos Advogados da OAB/MT, por meio do advogado                    , que impetrou Habeas Corpus preventivo, com pedido de liminar, alegando abuso de autoridade. 
O advogado estava na Praça Barão de Rio Branco quando a guarnição da Polícia Militar resolveu realizar ação preventiva após receber denúncia de que no local havia pessoas possivelmente de posse de arma de fogo, não sendo, contudo, informadas as características do suspeito. Após anunciar que os presentes seriam revistados, o advogado se recusou a tal prática e o policial tentou conduzi-lo forçadamente pegando em seu braço. Ao se negar novamente, o advogado recebeu voz de prisão pelo crime de desacato e desobediência. 
Com base nos fatos, o juiz                    reconheceu o abuso de autoridade do policial militar fundamentando que 'a polícia militar jamais poderia ter feito a abordagem como fez, uma vez que sequer tinha certeza de que havia pessoas portando arma de fogo'.

Para o juiz, 'se a princípio a conduta do policial era ilegal, o advogado tinha razão em se recusar a ser submetido à revista pessoal. Aliás, qualquer pessoa também poderia se recusar a uma ordem ilegal, motivo pelo qual não se pode falar em crime de desobediência. Ademais, nada há nos autos que demonstre ter o paciente praticado desacato contra policiais militares, pois em momento algum ficou demonstrado que o advogado tivesse ofendido, menosprezado, humilhado quem quer que seja'." (Revista Consultor Jurídico, 2011).

O mais curioso nessa notícia é o argumento de que a polícia não pode realizar uma abordagem e uma busca pessoal quando não tem certeza ou não é capaz de distinguir o criminoso do cidadão. Além disso, a ação policial baseada em informações imprecisas caracteriza o abuso de autoridade. Agora leia a notícia intitulada “Pena menor para furto e maior para autoridades”, publicada no Jornal do Senado, em 23 de abril de 2012. No anteprojeto do novo Código Penal o crime de abuso de autoridade terá pena de um a cinco anos de reclusão. E se o policial for condenado, ele também perderá o emprego.  O atual Código Penal, na parte que trata dos crimes praticados por funcionário público, informa que o crime de prevaricação tem pena que varia de três meses a um ano de detenção, e multa. Ou seja, se o policial deixa de atuar porque não tem informações exatas, possivelmente está prevaricando. Se ele age em razão de uma suspeita, e não duma certeza, está abusando da autoridade. Numa analogia ao quadro do foguete do programa Domingo no Parque, o apresentador Sílvio Santos perguntaria ao policial: "Você quer trocar o crime de abuso de autoridade pelo de prevaricação?" Talvez muitos policiais diriam: "Siiimmm!" Certamente, outros tantos responderiam: "Nãããooo!" Restaria saber quantos diriam um coisa e quantos responderiam outra. O apresentador poderia perguntar também: "Você quer trocar seu distintivo por uma bola de cristal?" "Siiimmm!", responderiam todos.

Só um policial tolo, ingênuo, sociopata ou inconsequente supõe que pode ou deve desrespeitar as leis para cumprir seu dever. Se um policial acredita que pode tudo, então ele se enquadra em uma das quatro categorias mencionadas, mesmo que ache que está prestando um relevante serviço à comunidade. Mas uma verdade precisa ser repetida: quem sabe como a polícia deve trabalhar é a própria polícia. E isso não significa que toda conduta policial seja ilegal, mesmo que esteja baseada numa suspeita ou em informações incompletas. Quem dera fosse possível contar SEMPRE com informações completas e precisas na atividade policial! Se fosse assim, milhares de policiais estariam em casa aguardando o chamado para ações cirúrgicas em vez de estarem patrulhando as cidades em busca de pessoas suspeitas.

De qualquer modo, quando o COPOM recebe uma chamada, as informações ainda são incompletas. Existem várias razões para isso: a testemunha não possui todos os dados; o tempo para prestar a informação é curto; a testemunha está apavorada e não consegue coordenar as ideias; a ocorrência é tão urgente e perigosa, que a polícia precisa enviar suas guarnições para o local do fato imediatamente, mesmo sem os detalhes do caso. Portanto, a natureza do trabalho policial, principalmente da Polícia Militar, não permite o conhecimento ou a certeza de todas as informações sempre, até porque as lacunas existentes serão preenchidas pelos policiais no local do acontecimento. Por isso, a vigilância, a abordagem, a entrevista e a busca pessoal são tão importantes. São essas ferramentas que auxiliam o policial a conectar fragmentos de uma informação e completar uma história que começou com uma simples ligação telefônica.

Então, o policial pode verificar vários locais antes de encontrar o lugar certo. Ele também pode ser obrigado a abordar, entrevistar e revistar várias pessoas antes de pegar o criminoso.

Em muitos casos os policiais são capazes de detectar se a informação é verdadeira ou não. Considerando que a vida tem valor inestimável, a polícia deve conferir até as informações possivelmente falsas (os trotes), já que é no local da suposta ocorrência que a informação será depurada para que se possa ter CERTEZA de sua veracidade ou falsidade. Talvez por isso a polícia prefira pecar pelo excesso, caso contrário, o resultado pode ser mortal para as vítimas em potencial e devastador para os familiares. Mas pelo visto, o policial no COPOM agora precisa perguntar se a denúncia é verdadeira ou se a informação é certa e completa, porque a guarnição só pode atuar se houver certeza.

Quanto ao caso específico, a ação policial não poderia ter ocorrido de outra maneira já que a denúncia informava a presença de um homem armado na praça. Que atitude os policiais poderiam tomar a não ser realizar buscas pessoais naqueles que estavam no local indicado? Se a guarnição tivesse CERTEZA sobre a pessoa portando a arma de fogo, então não seria o caso de avisar sobre a busca, mas sim enquadrar o suspeito. Além disso, só um criminoso muito incompetente deixaria sua arma à mostra. O que se sabe sobre o comportamento criminoso é que o bandido sempre tenta passar despercebido, e quando ele precisa mostrar a arma é sempre no último instante. Vale lembrar que o tempo que se gasta para sacar uma arma na frente do corpo é de 1,09 segundos (HONTZ, 2004. WENDLING, 2011). Portanto, vítimas e policiais só terão certeza de que alguém está portando uma arma quando ela estiver apontada para eles.

Entretanto, o problema que muitos policiais enfrentam não se resume à busca pessoal, mas no conceito que algumas pessoas fazem de si mesmas. Quer dizer, da imaginação de que certas pessoas fazem parte de um grupo seleto, e portanto, ISENTO de ser submetido ao procedimento. Assim, a indignação entre essas pessoas é um sentimento corriqueiro. Mas, pergunte a alguém que já foi assaltado se ele se incomoda com as buscas pessoais naqueles que se encaixam na descrição do suspeito. Pergunte ao pai de alguém que foi assassinado se ele fica indignado. Pergunte a uma mulher que foi violentada se ela se aborrece quando vê a polícia trabalhando.

Todo cidadão deseja viver em segurança. Na verdade, todos querem que seus entes queridos retornem para casa sãos e salvos. Todos querem seus bens móveis e imóveis protegidos. Todos querem o direito de ir e vir com absoluta segurança. E é aqui que a atitude do policial, que trabalha para garantir a segurança tão desejada pela população, esbarra nos sentimentos daqueles que se acham acima de qualquer suspeita.

Lamentavelmente, a primeira certeza quem alguém pode ter é que amanhã algumas pessoas serão assassinadas; outras serão violentadas; algumas, espancadas; umas terão seus lares invadidos e vandalizados; algumas crianças desaparecerão e outras serão vítimas de pedófilos. Alguns terão seus carros furtados e outros cairão em golpes. A segunda certeza que se pode ter é que amanhã milhares de brasileiros irão chorar. Será que essas certezas não são suficientes para que se entenda, de uma vez por todas, que o trabalho policial não pode ser objeto da antipatia de alguns.

Finalmente, ao policial cabem duas certezas: que ele é o único ser humano disposto a trazer segurança e paz nessa luta sem fim contra os criminosos; e que ele pode morrer, ser preso e perder o emprego tentando fazer isso.


Fonte: Thomas A. Hontz em Firearms Response Time, 2004.
Fonte: Humberto Wendling em Treinando para a hora da verdade (Parte 2), 2011.


Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
E-mail: humberto.wendling@ig.com.br
Blog: www.comunidadepolicial.blogspot.com
Twitter: twitter.com/HumbertoWendlin


sexta-feira, 13 de abril de 2012

Onde eu escondo isso?!

O artigo "Acho que perdi minha arma!" mal foi publicado e mais três pistolas Glock foram perdidas. Num dos casos, a policial também perdeu a carteira funcional. Ligando uma coisa à outra, deduzi que ela ainda perdeu a bolsa (onde estavam a arma e a carteira). Além disso, deduzi que a ocorrência pode ter sido um caso de furto ou roubo. Também já estou considerando que se o ritmo de perdas das pistolas Glock continuar como está, em breve voltaremos a usar revólveres .38 SPL.

Todo policial sabe que uma arma de fogo é um instrumento para a autodefesa que deve estar ao alcance das mãos. O Código Penal Brasileiro determina o que é furto e o que é roubo com base nas ações do criminoso. Mas é possível diferenciar uma coisa da outra de acordo com as ações do policial e a distância entre ele e a arma que lhe foi confiada. Grosso modo, se o policial não tem contato visual com a arma ou a mantém fora de alcance no momento da ocorrência, é furto. Se a arma está onde deve, ou seja, junto ao corpo, é roubo.

A arma junto ao corpo indica dois modos distintos de porte: no corpo e fora do corpo. O porte num coldre preso ao corpo permite que você carregue a arma sob suas roupas todo o tempo e onde quer que vá, enquanto o porte fora do corpo permite que você leve a arma numa bolsa, mochila, pochete ou maleta.

À primeira vista, o porte fora do corpo parece excelente já que não é preciso nenhuma mudança no seu estilo de vestir ou o acréscimo de equipamentos ao corpo. Além disso, esse tipo de porte é mais apreciado pelas mulheres, considerando que a maioria carrega uma bolsa diariamente. Do mesmo modo, os homens também utilizam mochilas e pochetes.

Mas antes que você decida carregar sua arma desta forma, é preciso considerar e entender os problemas que este tipo de porte acarreta.

Clint Smith, instrutor norte-americano, afirma que o porte de arma não é para ser confortável, mas para ser confortante. De fato, portar uma arma nunca é socialmente confortável, não importa o modo como você a transporta. Talvez, o porte fora do corpo seja o mais preocupante e perigoso, pois poucas pessoas têm o hábito de ficar sempre com a bolsa junto ao corpo em todos os lugares. Por exemplo, a maioria das mulheres deixa a bolsa sobre um móvel e esquece que ela existe até o fim da visita. Se uma arma de fogo está escondida dentro da bolsa, deixá-la assim não é uma opção. Mas, mantê-la continuamente pendurada no ombro ou sobre o colo também é extremamente incômodo para a policial e estranho para a outras pessoas.

E não importa quão cuidadosa você seja, o fato é que o porte numa bolsa simplesmente não é tão seguro quanto o porte no corpo. Bolsas são frequentemente deixadas no chão, sobre o sofá, encostadas na parte de trás de cadeiras, no assoalho do carro ou em guarda-volumes de academias. Se você deixa sua bolsa onde alguém pode pegá-la, a probabilidade é de essa pessoa descobrir que você carrega uma arma (perigo de furto).

Bolsas, mochilas e pochetes são frequentemente alvos de ladrões. Em algumas situações, a melhor tática de sobrevivência é simplesmente entregar o que você tem para o assaltante. Mas portar uma arma nesses lugares elimina qualquer outra opção de autodefesa, caso você precise reagir, principalmente se o roubo se transformou num sequestro relâmpago ou estupro. Além disso, muitos criminosos reconhecem uma pochete "policial" ou uma bolsa "tática" pelo que ela é, e durante o ataque o elemento surpresa está contra você. Nem é preciso mencionar que o saque duma arma a partir de bolsas convencionais é DEMASIADAMENTE LENTO.

Pessoalmente, eu não acredito que o porte fora do corpo seja o ideal para o uso diário, pois existem muitas coisas que podem dar errado. Contudo, (Argh! Custa-me dizer isso!) existem momentos e lugares onde o porte de arma numa bolsa faz algum sentido. Por essa razão, toda mulher que porta uma arma deve possuir, pelo menos, uma bolsa própria para o porte da arma, assim ela pode estar minimamente preparada para as RARAS circunstâncias onde o porte no corpo não é viável. Além do mais, muitas mulheres não irão portar uma arma a menos que possam carregá-la na bolsa, e muitas destas mulheres simplesmente não tentarão o porte no corpo de forma nenhuma. E isso tem relação com a estrutura corporal da mulher e com a moda, uma vez que diferente dos homens, as mulheres não podem simplesmente vestir uma calça jeans e uma camisa para fora.

Enquanto as vantagens do porte no corpo são maiores, eu prefiro ver policiais femininas portando suas armas de modo não tão ideal (naquelas raras circunstâncias) a vê-las totalmente desarmadas. Portanto, considerando que muitas policiais escolhem levar a arma na bolsa, elas precisam de informações sobre este método de porte. Porém, é necessária uma reflexão: pense sobre os custos de lutar com um ladrão para proteger seus pertences. Realmente vale a pena arriscar sua vida para proteger a bolsa onde está a arma (que você carrega para proteger sua vida)? Considerando que você não vai conseguir sacar sua arma a tempo, o benefício de lutar pela posse da bolsa não vale o risco de morrer. E entregar “gentilmente” sua bolsa com a possibilidade de sua arma ser encontrada não é algo que se aceite com facilidade. Então, não seria melhor portar a arma no corpo? Se um criminoso tomar sua bolsa e descobrir que você tem uma arma, seguramente ele irá matá-la.

De qualquer modo, você precisa de um coldre (de couro rígido ou cordura), mesmo que tenha escolhido uma arma pequena como a Glock 26. Você precisa de um coldre que proteja o gatilho e impeça que uma caneta, um batom, suas chaves ou seu próprio dedo pressione o gatilho e provoque um disparo acidental.

Obviamente, bolsas femininas não foram projetadas para o porte de armas de fogo e, de modo geral, a maioria delas possui apenas um grande compartimento no qual ficam todos os objetos. Nessa configuração, ou seja, sem um local adequado, a arma representa apenas mais um objeto perdido dentro da bolsa e cujo acesso e empunhadura estão fora de questão na maioria dos casos.

Sua bolsa precisa de um lugar específico para a arma. Este local pode ser o próprio coldre, desde que ele fique preso à estrutura interna da bolsa numa posição ergonômica e adequada ao saque. Ao prender o coldre à parte interna da bolsa, toda a estrutura interna deve ser bem reforçada para impedir que a arma se incline devido ao peso e dificulte a empunhadura e o saque em situações de estresse. Um coldre dedicado mantém a arma sempre na mesma posição, com o cano apontado para uma direção conhecida e com a empunhadura disponível de forma natural. Assim, você não precisa vasculhar o interior da sua bolsa à procura da arma no momento em que sua atenção deve estar voltada para a ameaça que se aproxima.

O acesso ao coldre deve ser feito sempre por um fecho de zíper na parte superior ou frontal da bolsa. A inclinação do coldre vai depender da posição de acesso. Quer dizer, num acesso superior, o coldre deve ficar mais na vertical (a presilha do coldre é opcional). Já no acesso frontal, o coldre deve permanecer mais na horizontal. Ainda no acesso frontal, o fecho deve ser aberto movimentando-se o zíper de cima para baixo. Se preferir, você pode dividir sua bolsa em duas partes: a maior para os itens comuns e com acesso superior; e o menor para a arma e com acesso exclusivo pela frente (como mostra a imagem no início deste artigo). A abertura de acesso deve ser AMPLA o suficiente para permitir que você coldreie e saque sua arma com facilidade e rapidez. Nunca use velcro para fechar o compartimento que dá acesso à arma ou na presilha do coldre.

A presilha do coldre, se houver, nunca deve envolver a armação da pistola. Se a presilha estiver na posição incorreta (sobre a armação) quando você empunhar a arma, sua mão cobrirá a presilha impedido sua liberação. Portanto, a presilha deve sempre envolver o ferrolho passando sobre o cão ou sobre a placa de cobertura do ferrolho (no caso da Glock). O botão de liberação da presilha deve ser acionado pelo polegar da mão que empunha a arma (a mão forte).

Preso no interior da bolsa, o coldre manterá o formato criado pela arma, que poderá ser sacada e coldreada quando quiser. Isso não significa que você deve esperar até o último instante para sacar a arma. Se você julgar uma situação ou um lugar perigoso (um estacionamento mal iluminado, por exemplo), pode discretamente abrir o compartimento e empunhar a arma antecipadamente sem tirá-la da bolsa.

Você também pode reforçar as costuras das alças de sua bolsa para dificultar a ação de trombadinhas. Se as alças da bolsa forem longas ou ajustáveis, mesmo que não sejam reforçadas, você pode cruzá-las no corpo para aumentar o controle da bolsa quando estiver em locais onde há muitas pessoas. Entretanto, o reforço das alças não impede a ação do ladrão, mas dificulta o trabalho dele. Neste caso, você pode ter que lutar com o criminoso pela posse da bolsa já que terá dificuldade de se livrar dela com rapidez. Isso significa que reforçar as alças ou cruzar a bolsa no corpo é uma ideia ruim? De jeito nenhum! Significa apenas que você deve compreender que sua escolha de porte implica na necessidade de treinamento de saque considerando as situações mais perigosas.

Se você empunha a arma com a mão direita, sua bolsa deve ficar pendurada no ombro esquerdo ou debaixo do braço esquerdo (se cruzada no corpo). O zíper do compartimento exclusivo da arma deve estar voltado para frente (acesso frontal), permitindo que a mão direita alcance a arma com facilidade. Para o saque, você firma a bolsa com a mão esquerda enquanto baixa o zíper e pega a arma com a mão direita. Este modo de sacar a arma se assemelha ao utilizado com os coldres axilares.

Muitas bolsas possuem um lado decorado com fechos, bolsos extras e outros ornamentos que ficam voltados para fora quando elas são carregadas. Se você é destra, mas pendurar sua bolsa no ombro direito com o lado decorado para fora, saiba que o compartimento da arma e o coldre ficarão voltados para trás. Isso inviabiliza qualquer tentativa de saque. Portanto, SEMPRE mantenha sua bolsa do lado contrário ao da mão forte. Porém, você pode pendurar a bolsa no ombro direito com o compartimento da arma para frente desde que o lado decorado fique voltado para dentro, certo? Correto! Mas sendo destra, você não vai conseguir sacar a arma com a mão esquerda. Por quê? Porque uma bolsa adaptada para o porte de arma é projetada para ser usada APENAS com a mão forte e o polegar desta mão (responsável pela soltura do botão da presilha do coldre).

Dentre todas as bolsas que você possui, pelo menos uma deve ser adaptada para atender os requisitos de porte de arma. Uma bolsa grande acomoda facilmente uma Glock 19 ou mesmo uma Glock 17, mas elas pesam mais que o modelo 26. Esse peso adicional, aliado aos outros objetos DESNECESSÁRIOS que talvez você queira acondicionar na bolsa devido ao espaço extra, pode induzi-la a colocar a bolsa num canto qualquer sempre que possível, aumentando o risco da arma não estar disponível quando você mais precisar.

Lembretes úteis

O porte de uma arma no corpo é superior em todos os aspectos e recomendado para qualquer situação. Se você insiste em portar sua arma na bolsa, então a mantenha fora do alcance de crianças e curiosos, e sempre ao alcance das suas mãos. Saque e coldreie a arma com o dedo fora do gatilho. Se for necessário ganhar tempo para sacar a arma, CORRA para se distanciar do suspeito enquanto você abre a bolsa. Treine bastante “em seco”, mas antes verifique se a arma está vazia e em segurança. Sugiro que você consulte o link http://www.youtube.com./watch?v=ogGBPVk5GQk. Neste vídeo você pode encontrar boas ideias para o porte dissimulado feminino. Mas o mais importante: fique atenta para não ser atacada de surpresa.

Foto: http://www.gunreports.com/special_reports/accessories/concealed-carry-purse-self-defense-women388-1.html

Humberto Wendling é Agente de Polícia Federal e Professor de Armamento e Tiro lotado na Delegacia de Polícia Federal em Uberlândia/MG.
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